Saturday, January 16, 2016

O Homem Certo Na Hora Errada Ou O Homem Errado Na Hora Certa


 O FC Porto mudou o seu sistema há alguns anos. Sempre foi conhecido pela sua estrutura que comprava barato e vendia caro. É certo que o mercado mudou e hoje em dia mesmo os clubes pequenos já vendem mais caro, mas o que mudou tudo foram os fundos. O aparecimento dos fundos levou os clubes com menores recursos a servirem-se deles para poder continuar a competir ao mais alto nível. Pela excelência que prima a direção do FC Porto, mais concretamente o seu Presidente, o clube não ficou refém e continuou a valorizar jogadores, mesmo aqueles que lhes eram providenciados em carteira. Comprava mais caro vendendo também mais caro.

Como em tudo na vida, a dada altura as fontes secam ou quem lá vai beber começa a ter outros interesses, quiçá pessoais. Pinto da Costa tem vindo a ficar fragilizado, todos nós sabemos, desde o Apito Dourado começou a aparecer menos e quem tem dado a cara ao longo dos anos na defesa do clube têm sido os treinadores sofrendo um desgaste maior da sua imagem. Por outro lado, ganhou também força a figura de Diretor Desportivo que nos primeiros anos tinha em Pinto da Costa um acumular de funções ou então, dependendo do treinador, era delegado no mesmo. José Mourinho foi o expoente máximo dessa relação. Jovem, ambicioso, gestor de homens, traçou o perfil de jogadores que pretendia e a SAD deu-lhe o que pediu. O resultado é o que todos sabem.

Nos anos que se seguiram, Antero Henrique foi ganhando poder, ficou com essa pasta e criou ligações muito fortes com os fundos, nomeadamente a Doyen. Mais recentemente o filho do Presidente juntou-se também à festa num reatar de relações conjugais que não agradaram a muita gente. Enganem-se aqueles que pensam que este é um artigo contra os fundos, não o é, é um artigo contra a ténue linha entre o benefício e o prejuízo de estar dependente dos fundos.

 
Após Vitor Pereira, chegou um treinador jovem, ele também ambicioso mas sem qualquer força a nível de gestão, a sua força estava, no treino e os jogadores foram impostos pela SAD, pediu um ou outro mas nada de extraordinário. Denotou também uma incapacidade de lidar com a grandeza do clube onde tinha chegado.

Aqui começaram os reais problemas do FC Porto, uma época miserável, uma roda-viva de treinadores e os jogadores órfãos de um líder. Pinto da Costa percebeu que faltava um projeto sólido e com o poder que ainda tinha, traçou o perfil de treinador que pretendia, para além de ser ambicioso tinha também de conhecer o mercado, ter influência sobre ele, ser uma extensão do Presidente. Cai assim a escolha em Lopetegui, homem com grande experiência nos escalões de formação, um trabalho que requer análise, observação, gestão. Pinto da Costa voltava a fazer uma aposta pessoal, desta vez a longo prazo.

Com Lopetegui vieram grandes jogadores, construiu-se uma grande equipa. O plantel do ano passado foi uma rutura com os jogadores escolhidos pelo catálogo Doyen, com o desinvestimento desde a era AVB que teve talvez o melhor plantel dos últimos 20 anos. Com o apoio do Presidente chegam jogadores que em condições normais não vinham para o nosso campeonato. Óliver, Casemiro, Tello. Chegou também Marcano, um central dado como banal e perdido na Rússia e que se revelou um autêntico patrão e a aposta em Rúben Neves. Chegaram também os conhecidos flops, até Mourinho falha.
 

Tinha tudo para dar certo mas não deu. Não deu por várias razões, primeiro porque após um ano traumático e tanto investimento era expectável ganhar títulos. A época foi pautada por altos e baixos. 82 pontos no campeonato, quartos de final da Champions e momentos de grande futebol. Face à sua inexperiência em grandes clubes e ao desconhecimento da realidade portuguesa (colinhos incluídos), Lopetegui cometeu erros que lhe impuseram o rótulo de incompetente e persona non grata, muitos não superaram a humilhante eliminação da taça em casa contra um rival. A falta de títulos matou qualquer margem de erro para épocas seguintes.

A segunda época é de uma tolerância zero nunca antes vista. Na pré-época começam as vendas, Lopetegui fica sem 5 claros titulares. Com ele, de renome vem apenas Casillas e o resto é imposto pelo catálogo Doyen, mesmo Maxi terá sido uma opção da SAD. Até ao dia 31 de Agosto fica sempre a impressão que faltou alguém. Óliver pareceu sempre possível voltar, Casemiro ainda foi tentado e o matador não chegou, veio antes um qualquer pirata passar férias. Toda a gente diz que foi mais um investimento brutal mas nem ainda hoje se sabe quanto dos 20 milhões por Imbula foram realmente assumidos pelo clube.

Fazendo um salto até ao dia de hoje, algumas coisas começam a ficar claras, o facto de Lopetegui ter repetido várias vezes que o Presidente sabia que ele não era o problema, que precisava de reforços, o facto de o menino Doyen (Imbula) estar na bancada e a equipa parecer não estar com o treinador fazem pensar na guerra que existia nos corredores do Dragão, talvez no estádio todo e edifícios circundantes.  Juntando as peças todas olhamos para um Lopetegui que foi perdendo influência e foi engolido pela atual estrutura do FC Porto, Lopetegui ficou apenas porque Pinto da Costa acreditava no perfil do treinador mas ficou a lutar sozinho.


Antero Henrique deu várias imagens de não estar com Lopetegui, entre o murro no banco do Belenenses enquanto Antero "twettava" algo, ao desespero com as mãos na cara contra o Rio Ave enquanto Antero fazia um qualquer “like” no "Insta" dá a imagem de um treinador só e abandonado. Lopetegui continuou a repetir que tinha condições para continuar, mesmo que isto parecesse apenas um discurso de desespero, não o é e a dificuldade nas negociações da sua saída juntamente com as declarações do seu pai começam a levantar o véu sobre os reais problemas do FC Porto.

Neste momento, o FC Porto tem um CEO/Diretor Desportivo com poderes a mais e com ligações muito perigosas a fundos, alguns de carácter duvidoso. Para além dos fundos há ainda as também duvidosas empresas de segurança onde também mais uma vez está envolvido o Presidente. Neste momento qualquer treinador que lhe queira passar por cima, negando por exemplo os jogadores que os fundos querem valorizar correm o risco de ter o fim de Lopetegui. Até que ponto as opções jogo a jogo são influenciadas por esta "estrutura"? Neste momento, treinar o FC Porto parece voltar a ser aquela velha máxima de que quem está no banco arriscasse a ser campeão desde que seja minimamente competente, mas os nossos rivais estão mais fortes e o domínio avassalador da década de 90 já não é possível com "pinos" no banco e jogadores de carácter duvidoso.

Muita coisa tem de mudar no FC Porto ou nos próximos tempos teremos treinadores subservientes a fundos e a trabalhar com o que podem. Vitor Pereira foi o pioneiro, contornou-as porque era um excelente treinador, mesmo com títulos saiu agastado com tudo e todos. Quanto a Lopetegui, nunca teve o consenso dos adeptos, foi sempre acusado de um futebol paupérrimo mesmo quando venceu tubarões europeus a jogar bem, hoje em dia é fácil criticar mas no ano transato muita gente sonhou. Lopetegui não era perfeito, não era mau, era simplesmente o homem certo na hora errada ou talvez o homem errado na hora certa, talvez um dia possamos ter de novo um “manager”, sim, esse estrangeirismo que anda na boca de muita gente mas que no fundo é um treinador que não pode ser apenas quem dá o treino e as táticas. Pinto da Costa tem de voltar a ter mão na SAD para recuperar o legado que Mourinho e AVB deixaram. Será que tão perto do fim da sua brilhante carreira o Presidente quer ser lembrado desta forma?

Texto escrito pelo nosso Bordelista e Portista, Carlos Mouta


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